Plataforma analisa leis, políticas de doação de alimentos no mundo e indica recomendações de reaproveitamento de alimentos

Susana Sarmiento

Editora do Kantuta Comunica

Mais de 61,3 milhões de pessoas no Brasil convivem com algum grau de insegurança alimentar, e 42% dos alimentos produzidos no país são perdidos entre a colheita e o varejo a cada ano, de acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). Esses dados foram discutidos no Seminário Internacional “Sistemas Alimentares: Oportunidades para Combater a Fome e o Desperdício no Brasil”, realizado em 6 de agosto, em comemoração aos 30 anos do programa Sesc Mesa Brasil, um dos maiores bancos de alimentos da América Latina. Durante o evento, também foi lançado o Atlas Global de Política de Doação de Alimentos (https://atlas.foodbanking.org/map/), uma pesquisa desenvolvida pela Global FoodBanking Network (GFN) e pela Harvard Law School, em parceria com o Sesc.

O seminário promoveu debates sobre a situação da insegurança alimentar no Brasil e no mundo, além de possíveis soluções para combater a fome e o desperdício. Mariana Meirelles Ruocco, nutricionista e gerente da Gerência de Alimentação e Segurança Alimentar do Sesc São Paulo, destacou a importância do evento: “Este seminário internacional proporcionou uma troca de reflexões entre diversos públicos sobre uma pauta essencial. O Brasil sempre conviveu com a fome, e, quando o Sesc Mesa Brasil foi criado em 1994, acreditávamos que seria um programa de curta duração, pois não imaginávamos que a fome ainda persistiria nos dias de hoje”, afirmou.

O Atlas Global de Política de Doação de Alimentos reúne leis e políticas de doação de alimentos em diversos países, oferecendo recomendações para fortalecer essas estruturas e incentivar o reaproveitamento de alimentos, combatendo a fome. A pesquisa abrange 24 países e apresenta mecanismos valiosos para bancos de alimentos e iniciativas correlatas, como sistemas de rotulagem dupla, subsídios fiscais para doações e multas para empresas que destinam alimentos para aterros sanitários.

Gray Norton, advogada e pesquisadora sênior da Harvard Law School Food and Policy Clinic (FLPC), apresentou o Atlas e seus principais insights, destacando as diferentes abordagens adotadas pelos países em relação à segurança alimentar, rotulagem, proteção de responsabilidade para doações e incentivos fiscais. Ela explicou que as classificações variam de “moderada” a “forte” e ofereceu recomendações para melhorar as estruturas existentes, além de incentivar a colaboração internacional. “Todos os países podem abordar essas questões de maneiras distintas. No Reino Unido, por exemplo, há uma política forte de rotulagem de datas, mas nos EUA, essa política não existe. Já o Brasil possui uma lei de proteção contra responsabilidades, mas é necessário aumentar a conscientização sobre essa política”, comentou Gray.

Ela incentivou gestores de iniciativas de combate à fome a explorar o site do Atlas e comparar as políticas entre diferentes países, a fim de impulsionar a conscientização e colaboração global nessa pauta. “Entender essas políticas é essencial para promover as mudanças que buscamos, pois esse é um esforço coletivo”, acrescentou.

No painel “Política de Doação de Alimentos: um caminho para reduzir a perda e o desperdício e aliviar a fome”, o professor Carlos Portugal Gouvêa, da Universidade de São Paulo e Harvard Law School, destacou a disparidade econômica do Brasil, um dos maiores produtores de carne do mundo, mas que também enfrenta altos índices de desperdício alimentar. Ele discutiu políticas públicas relacionadas à segurança alimentar e nutricional, e compartilhou resultados de uma pesquisa realizada com seus alunos na região de Parelheiros, em São Paulo, que revelou a fome entre crianças, idosos e famílias de baixa renda, apesar da existência de programas como o Bom Prato. “Muitas dessas pessoas não conseguem acessar esses restaurantes populares devido ao custo do transporte”, observou o professor.

Site: https://atlas.foodbanking.org/map/