Censo ABCR 2025 revela perfil e desafios da captação de recursos no Brasil

Um homem e uma mulher palestrando sobre o Censo ABCR 2025 no Festival ABCR.

O painel O perfil dos captadores brasileiros: dados do Censo ABCR 2025, realizado na tarde do primeiro dia do Festival ABCR (16 de junho), apresentou um panorama inédito da profissão no país. A pesquisa, conduzida pela Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR), foi debatida por Fernando Nogueira, diretor executivo da organização, e Ana Flavia Godoi, fundadora da Rede Conexão Captadoras e referência internacional na área. O Censo tem como objetivo mapear o perfil dos profissionais que atuam na captação e mobilização de recursos para causas sociais no Brasil, além de identificar tendências e desafios enfrentados no campo. Entre os dados divulgados, o salário médio dos captadores gira em torno de R$ 8.500. Os principais obstáculos enfrentados envolvem a falta de tempo dedicado exclusivamente à captação — muitas vezes acumulada com outras funções —, a ausência de visão estratégica por parte das organizações, escassez de recursos disponíveis e a carência de profissionais qualificados. As cinco áreas mais citadas como apoio à captação são: comunicação e marketing, setor administrativo-financeiro, diretoria e conselho, equipe de projetos e prestadores de serviços externos. As atividades mais frequentes no cotidiano dos captadores incluem: elaboração de projetos (82%), ações de comunicação e marketing, relacionamento com doadores (65%), gestão e planejamento estratégico (67%), acompanhamento financeiro e de projetos (62%), pesquisa de doadores potenciais (61%), criação de planos de captação (60%), reuniões (58%) e realização de eventos (56%). Entre as estratégias mais utilizadas estão: participação em editais de empresas, fundações e governos; uso de leis de incentivo; parcerias com empresas; eventos como jantares e bingos; doações recorrentes de pessoas físicas; botões de doação em sites e redes sociais; e captação com grandes filantropos. A pesquisa também revelou dados preocupantes sobre preconceitos na área: 27% dos respondentes afirmam enfrentar barreiras relacionadas à identidade; 35% já passaram por situações desconfortáveis ou discriminatórias; e 54% reconhecem que mulheres, pessoas negras e de grupos minorizados enfrentam dificuldades específicas na profissão. Mais informações estão disponíveis no site da ABCR: www.captadores.org.br

Festival ABCR 2025 celebra 25 anos da organização e consolida captação de recursos como profissão reconhecida no Brasil

Imagem com representantes da antiga gestão da ABCR no Festival ABCR 2025.

O Festival ABCR 2025, realizado em São Paulo entre os dias 16 e 17 de junho , celebrou os 25 anos da Associação Brasileira de Captadores de Recursos com um público recorde. Na segunda-feira e primeiro dia de evento, reuniu profissionais, especialistas e as gestões anteriores da organização, reforçando a trajetória de consolidação da captação de recursos como uma profissão legítima e estratégica no fortalecimento do terceiro setor. João Paulo Vergueiro, diretor do Hub da América Latina do GivingTuesday, doutorando em filantropia e professor da FECAP, destacou o reconhecimento formal da ocupação no Brasil. “Nos últimos quatro anos, essa profissão cresce e se fortalece. Em Portugal, é chamada de captador de fundos; nos Estados Unidos, fundraising; e no Brasil, captador ou mobilizador de recursos – já reconhecida pela Classificação Brasileira de Ocupações (CBO)”, afirmou. Criada em 1999, a ABCR surgiu em um contexto de crescimento das organizações da sociedade civil, como ONGs, OSCIPs, OSSs, institutos e fundações. Desde o início, pautou sua atuação pela ética, profissionalização e qualificação da captação de recursos. “A primeira coisa que fizemos foi elaborar nosso código de ética, inspirado em modelos internacionais. Começamos com 20 pessoas e hoje somos mais de mil, trocando experiências e aprendizados. Os desafios mudaram: na época não havia nem internet, e hoje lidamos com LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais), redes sociais, eventos climáticos e polarização política. Evoluímos com o mundo. Tenho muito orgulho de ser captadora há 30 anos. Foi com essa profissão que sustentei meus filhos”, afirmou Patrícia, uma das fundadoras da associação. Rodrigo Alvarez, idealizador da Mobiliza Consultoria e integrante de gestões anteriores da ABCR, ressaltou o propósito da criação da entidade: “Não queríamos apenas institucionalizar uma área, mas construir uma cultura de responsabilidade. Captar recursos é um ato de confiança, escuta e compromisso. Requer ética, coragem moral e consciência.” Durante o painel, também foram homenageadas figuras importantes da história da ABCR, como Custódio Pereira, Cristina Morato, Marcelo Estraviz, João Paulo Vergueiro (JP) e René Stuart, em nome de seu pai Sérgio Stuart. Inovação impulsiona resultados na captação Um dos destaques da manhã do primeiro dia foi a palestra Como a tecnologia liberta, acelera e potencializa resultados, com Soraya Lopes, gerente de produtos e operações na Trackmob, e Louise Toews, coordenadora de marketing, performance e dados no Hospital Pequeno Príncipe. Elas compartilharam a criação conjunta de uma plataforma de CRM e um produto chamado Smart Pix, que permitiu integração de dados e resultados expressivos: 70% das doações passaram a ser feitas via Pix, com economia de mais de 5 mil horas de trabalho. “Você liberta pessoas para atuarem de forma mais estratégica”, explicou Soraya. Louise complementou: “Temos 60 milhões de brasileiros sem cartão de crédito, mas com acesso ao Pix. Hoje recebemos cerca de 26 doações por dia, com valores que variam até R$ 5 mil. Também desenvolvemos um portal da privacidade, com avaliação automatizada da procedência dos dados e integração com o sistema interno do hospital.” Trajetórias inspiradoras: IPÊ e Fiocruz O painel Trajetórias na captação trouxe os casos do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ) e da Fiocruz, com Andrea Peçanha e Luis Donadio. Donadio, gerente de parcerias da Fiocruz, relatou a criação do escritório de captação da instituição em 2007. Em 2013, já eram 45 parcerias ativas. O marco veio em 2020, durante a pandemia, com o programa Unidos Contra a Covid, que arrecadou R$ 530 milhões. “Captação exige planejamento, sistematização e coragem para se expor. Mais do que o valor captado, o impacto institucional é fundamental. É uma construção baseada em confiança e processos sólidos”, disse, citando Eduardo Galeano: “É preciso ter uma utopia que te coloque em movimento.” Andrea, coordenadora da Unidade de Negócios Sustentáveis do IPÊ, reforçou a importância do papel da captação para a conservação ambiental. A organização atua em quatro biomas brasileiros, com mais de 10 milhões de árvores plantadas e 20 mil pessoas beneficiadas por ano. “Nosso desafio sempre foi crescer com sustentabilidade, diversificar fontes e conquistar recursos sem restrição”, explicou. Em 2003, com apoio da Fundação Avina, o IPÊ criou a unidade de negócios sustentáveis, com foco em parcerias e geração de receitas por meio da comercialização de produtos e serviços. Três núcleos foram estruturados: desenvolvimento institucional, negócios sustentáveis e comunicação. “Começamos com R$ 60 mil e hoje temos orçamento de R$ 85 milhões, com 74% vindo do setor privado. Até 2003, não havia nenhuma verba privada”, detalhou Andrea. Ela finalizou destacando a importância da confiança: “Nada substitui uma entrega de qualidade e uma comunicação transparente. Investidores querem se sentir parte da causa.” Para saber outros temas debatidos no evento, acesse o site do Festival ABCR aqui: https://festivalabcr.org.br/