O Festival ABCR 2025, realizado em São Paulo entre os dias 16 e 17 de junho , celebrou os 25 anos da Associação Brasileira de Captadores de Recursos com um público recorde. Na segunda-feira e primeiro dia de evento, reuniu profissionais, especialistas e as gestões anteriores da organização, reforçando a trajetória de consolidação da captação de recursos como uma profissão legítima e estratégica no fortalecimento do terceiro setor.
João Paulo Vergueiro, diretor do Hub da América Latina do GivingTuesday, doutorando em filantropia e professor da FECAP, destacou o reconhecimento formal da ocupação no Brasil. “Nos últimos quatro anos, essa profissão cresce e se fortalece. Em Portugal, é chamada de captador de fundos; nos Estados Unidos, fundraising; e no Brasil, captador ou mobilizador de recursos – já reconhecida pela Classificação Brasileira de Ocupações (CBO)”, afirmou.
Criada em 1999, a ABCR surgiu em um contexto de crescimento das organizações da sociedade civil, como ONGs, OSCIPs, OSSs, institutos e fundações. Desde o início, pautou sua atuação pela ética, profissionalização e qualificação da captação de recursos. “A primeira coisa que fizemos foi elaborar nosso código de ética, inspirado em modelos internacionais.
Começamos com 20 pessoas e hoje somos mais de mil, trocando experiências e aprendizados. Os desafios mudaram: na época não havia nem internet, e hoje lidamos com LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais), redes sociais, eventos climáticos e polarização política. Evoluímos com o mundo. Tenho muito orgulho de ser captadora há 30 anos. Foi com essa profissão que sustentei meus filhos”, afirmou Patrícia, uma das fundadoras da associação.
Rodrigo Alvarez, idealizador da Mobiliza Consultoria e integrante de gestões anteriores da ABCR, ressaltou o propósito da criação da entidade: “Não queríamos apenas institucionalizar uma área, mas construir uma cultura de responsabilidade. Captar recursos é um ato de confiança, escuta e compromisso. Requer ética, coragem moral e consciência.”
Durante o painel, também foram homenageadas figuras importantes da história da ABCR, como Custódio Pereira, Cristina Morato, Marcelo Estraviz, João Paulo Vergueiro (JP) e René Stuart, em nome de seu pai Sérgio Stuart.
Inovação impulsiona resultados na captação
Um dos destaques da manhã do primeiro dia foi a palestra Como a tecnologia liberta, acelera e potencializa resultados, com Soraya Lopes, gerente de produtos e operações na Trackmob, e Louise Toews, coordenadora de marketing, performance e dados no Hospital Pequeno Príncipe. Elas compartilharam a criação conjunta de uma plataforma de CRM e um produto chamado Smart Pix, que permitiu integração de dados e resultados expressivos: 70% das doações passaram a ser feitas via Pix, com economia de mais de 5 mil horas de trabalho.
“Você liberta pessoas para atuarem de forma mais estratégica”, explicou Soraya. Louise complementou: “Temos 60 milhões de brasileiros sem cartão de crédito, mas com acesso ao Pix. Hoje recebemos cerca de 26 doações por dia, com valores que variam até R$ 5 mil. Também desenvolvemos um portal da privacidade, com avaliação automatizada da procedência dos dados e integração com o sistema interno do hospital.”
Trajetórias inspiradoras: IPÊ e Fiocruz
O painel Trajetórias na captação trouxe os casos do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ) e da Fiocruz, com Andrea Peçanha e Luis Donadio. Donadio, gerente de parcerias da Fiocruz, relatou a criação do escritório de captação da instituição em 2007. Em 2013, já eram 45 parcerias ativas. O marco veio em 2020, durante a pandemia, com o programa Unidos Contra a Covid, que arrecadou R$ 530 milhões.
“Captação exige planejamento, sistematização e coragem para se expor. Mais do que o valor captado, o impacto institucional é fundamental. É uma construção baseada em confiança e processos sólidos”, disse, citando Eduardo Galeano: “É preciso ter uma utopia que te coloque em movimento.”
Andrea, coordenadora da Unidade de Negócios Sustentáveis do IPÊ, reforçou a importância do papel da captação para a conservação ambiental. A organização atua em quatro biomas brasileiros, com mais de 10 milhões de árvores plantadas e 20 mil pessoas beneficiadas por ano. “Nosso desafio sempre foi crescer com sustentabilidade, diversificar fontes e conquistar recursos sem restrição”, explicou.
Em 2003, com apoio da Fundação Avina, o IPÊ criou a unidade de negócios sustentáveis, com foco em parcerias e geração de receitas por meio da comercialização de produtos e serviços. Três núcleos foram estruturados: desenvolvimento institucional, negócios sustentáveis e comunicação. “Começamos com R$ 60 mil e hoje temos orçamento de R$ 85 milhões, com 74% vindo do setor privado. Até 2003, não havia nenhuma verba privada”, detalhou Andrea.
Ela finalizou destacando a importância da confiança: “Nada substitui uma entrega de qualidade e uma comunicação transparente. Investidores querem se sentir parte da causa.”
Para saber outros temas debatidos no evento, acesse o site do Festival ABCR aqui: https://festivalabcr.org.br/