No auditório do Centro MariAntonia da USP, educadores, representantes de institutos, organizações da sociedade civil e pesquisadores discutiram caminhos para uma educação mais diversa e inclusiva durante o Seminário Gênero e Políticas Educacionais no dia 11 de novembro. Promovido por Ação Educativa, Geledés – Instituto da Mulher Negra, Fundação Carlos Chagas, Faculdade de Educação da USP (FEUSP) e Professores contra o Escola Sem Partido, o evento também apresentou uma pesquisa sobre gênero nas políticas educacionais.
Desafios de gênero na educação
Na mesa Desafios de Gênero na Educação, Liliane Bordignon, da Fundação Carlos Chagas, apresentou dados do Mapa das Matrículas Iniciais na Educação Profissional Técnica de Nível Médio no Brasil: diferenças de gênero nos cursos técnicos. Segundo o levantamento, 57% das matrículas são de mulheres e 43% de homens. Entre os cursos analisados, Enfermagem lidera com 55 mil matrículas a mais que Administração. Estética, Podologia e Imagem Pessoal possuem maior participação feminina, enquanto Informática, Eletrotécnica e Mecânica são dominados por homens.
“Jovens negras enfrentam uma ausência de perspectiva de carreira, além do peso do trabalho doméstico e a concentração em nichos menos valorizados”, destacou Liliane, defendendo políticas públicas que combatam as desigualdades de gênero no mercado de trabalho.
Raça, classe e interseccionalidade
Bárbara Araújo, professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, discutiu o tema Desigualdade entre as Mulheres: Gênero, Raça e Interseccionalidade. Para ela, as políticas públicas precisam ser integradas, considerando as múltiplas dimensões das identidades. “A identidade está conectada à classe social. Ao falar de trabalho e raça, precisamos incluir as vivências de pessoas trans, negras e precarizadas”, afirmou.
Experiências educativas de pessoas trans
Dayanna Louise, da ANTRA, compartilhou a história de Brenda, uma mulher trans que teve sua principal formação educacional fora da escola. Expulsa do sistema educacional aos 13 anos, ela encontrou na prostituição um espaço de aprendizado, onde adquiriu habilidades como idiomas e conhecimentos sobre saúde. “A rua foi a melhor escola que tive”, relembra.
Meninos negros como sujeitos de políticas públicas
Alexandre Bortolini, presidente da ABETH, apresentou resultados preliminares do estudo Meninos Negros como Sujeitos de Políticas Públicas de Educação. Ele apontou a exclusão desse grupo das ações educativas desde os anos 1990. “As políticas curriculares e de aceleração da aprendizagem geralmente ignoram meninos negros. Há lacunas na educação para relações étnico-raciais. No campo progressistas, somos considerados exagerados. A produção e o uso de dados educacionais desde 1990 ainda têm problemas, em especial dados sobre estudantes. Precisaríamos resgatar o IDEB para checar as assimetrias que existem e acompanhar as estratégias que irão levar alunos de avaliação e remover do ensino regular para uma juvenilização do EJA (Educação de Jovens e Adultos)”, avalia o comunicador social.
Alexandre também disponibilizou gratuitamente seu livro É para falar de gênero SIM! – Fundamentos legais e científicos da abordagem de questões de gênero na educação .