Oxfam propõe agenda pública para enfrentar desigualdade e crise da dívida global

Foto de panorama de uma grande capital brasileira.

A Oxfam Internacional produziu o relatório Do Lucro Privado ao Poder Público: Financiando o Desenvolvimento, Não a Oligarquia, em que denuncia o fracasso da atual abordagem do financiamento ao desenvolvimento, marcada pela priorização de interesses privados e pelo aprofundamento das desigualdades. Lançado no final de junho, antes da Conferência sobre Financiamento para o Desenvolvimento, ocorrida entre os dias 30 de junho a 3 de julho, em Sevilha (Espanha), um encontro para discutir a implementação da Agenda 20230 e discutir a agenda de financiamento global e avanço nos objetivos de desenvolvimento sustentável. A publicação mostra o descompasso entre o crescimento da riqueza privada e a estagnação de metas globais, como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Em 2024, apenas 16% das metas estavam em vias de serem cumpridas até 2030, enquanto o 1% mais rico acumulou mais de 33 trilhões de dólares desde 2015 — valor suficiente para erradicar a pobreza global 22 vezes. A pesquisa aponta também a ineficácia da estratégia conhecida como Consenso de Wall Street, que tem orientado instituições multilaterais a mobilizar o setor privado para financiar o desenvolvimento. Em 2023, apenas 87,9 bilhões de dólares foram destinados a países de baixa e média renda, com uma parcela mínima chegando aos países mais pobres. Além de ineficiente, essa prática tem sido mais onerosa aos cofres públicos e ampliado a exclusão social, agravando a precarização dos serviços essenciais. Outro destaque do relatório é o papel dos credores privados na intensificação da crise da dívida. Países de baixa renda gastam mais da metade de sua receita com o serviço da dívida e enfrentam práticas abusivas de fundos especulativos, como os chamados fundos abutres. Além disso, classificações de risco inflacionadas por agências privadas elevam artificialmente os juros pagos pelos países do Sul Global, causando perdas bilionárias em investimentos e desenvolvimento. Por causa deste cenário alarmante, a Oxfam sugeriu no relatório uma nova agenda a ser debatida nessa Conferência sobre Financiamento para o Desenvolvimento. As recomendações incluem a rejeição do modelo centrado no lucro privado, o fortalecimento do papel dos Estados no financiamento e na provisão de serviços públicos, a taxação justa dos super-ricos, a reforma da arquitetura financeira internacional e o cumprimento dos compromissos de ajuda internacional pelos países do Norte Global. O relatório conclui que o modelo vigente não está conseguindo enfrentar a pobreza e a desigualdade e propõe uma mudança urgente de paradigma. A organização defende uma economia que coloque o bem público no centro das decisões financeiras, com Estados protagonistas no desenvolvimento e uma distribuição mais justa dos recursos globais. Acesse aqui a publicação na íntegra.

Estudo apresenta caminhos para uma filantropia familiar mais estratégica e com impacto no Brasil

Capa do estudo: Caminhos para uma Atuação Mais Ampla e Estratégica da Filantropia Familiar no Brasil.

O Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS), com apoio de organizações parceiras, lançou o estudo Caminhos para a Filantropia Familiar no Brasil, que traça um panorama atual do setor no país e propõe estratégias para ampliar seu impacto. A partir de entrevistas com filantropos e especialistas, além de levantamento de dados e revisão bibliográfica, o relatório evidencia o potencial da filantropia familiar de atuar com ousadia e visão sistêmica em causas sociais, ambientais e culturais — especialmente aquelas que ainda enfrentam invisibilidade ou resistência do campo corporativo. Entre as principais descobertas , destaca-se a contradição entre o crescimento acelerado da concentração de riqueza no Brasil e o tímido avanço das doações familiares de alto patrimônio. Apesar do interesse crescente em causas como justiça social, sustentabilidade e redução das desigualdades, a filantropia familiar brasileira ainda é marcada por baixa articulação entre pares, receio de exposição pública, desconfiança nas organizações da sociedade civil e escassez de incentivos fiscais. O estudo aponta que muitos filantropos ainda preferem operar projetos próprios, o que pode dificultar o fortalecimento do ecossistema filantrópico e limitar o alcance transformador das ações. A pesquisa também revela que a motivação para doar vai além da caridade pontual e envolve cada vez mais o desejo de gerar mudanças estruturais. Filantropos escutados citam o incômodo com os próprios privilégios e a urgência de promover soluções de longo prazo. Essa mudança de mentalidade tem impulsionado a transição de uma lógica reativa para uma filantropia estratégica, baseada em planejamento, foco temático, maior disposição ao risco e conexão com políticas públicas. No entanto, ainda há desafios importantes de governança, sucessão geracional e construção de confiança entre doadores e organizações parceiras. Para isso, o relatório propõe um Mapa Estratégico, que inclui ações como letramento da mídia sobre filantropia, formação de advisors, fomento à nova geração de doadores e fortalecimento institucional das OSCs. Além disso, recomenda-se a articulação de capital financeiro, político e intelectual, bem como o diálogo com o Estado para gerar impacto sistêmico e duradouro. A criação de redes colaborativas entre famílias, fundações e iniciativas já existentes é vista como essencial para transformar a cultura de doação no país. A publicação reforça que ampliar a filantropia familiar no Brasil exige coragem, reflexão e compromisso com o coletivo. Mais do que doações pontuais, trata-se de assumir a responsabilidade pelo presente e pelo futuro do país, reconhecendo o poder de mobilização que cada indivíduo e família detém, não apenas por seus recursos, mas por sua influência, tempo e conexões. A transformação, como afirma o relatório, não será feita por poucos.