Novo livro de Luiz Marques, livre-docente da Unicamp, demonstra responsabilidade e possibilidades para o Brasil na crise climática mundial

Está lançado desde sábado o mais novo livro de Luiz Marques, intitulado Ecocídio. Por uma (agri)cultura da vida. Marques é Professor universitário, livre-docente do Departamento de História da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), estudioso, nas últimas duas décadas, de crises socioambientais. Em 2016, recebeu o prêmio Jabuti pelo livro Capitalismo e colapso ambiental e agora, nove anos depois, traz uma nova leitura sobre o que chama de “aniquilação da biosfera” – reforçando que não é exagero usar o termo “aniquilação”. “O processo em curso mais ameaçador para a vida no planeta, e, portanto, também para a vida humana é, paradoxalmente, muito pouco noticiado pelos jornais. Trata-se do processo de aniquilação da biosfera, atualmente em aceleração. Não há exagero no uso do termo aniquilação. Em toda a história das civilizações humanas razoavelmente bem documentadas, digamos, nos últimos dez mil anos, as florestas tropicais do planeta e os oceanos mantiveram-se, com poucas exceções, relativamente íntegros em termos de funcionalidade e riqueza biológica. Mas, desde meados do século passado, com a atividade econômica destruindo a natureza em uma escala e velocidade sem precedentes na história humana, o planeta está sofrendo a Sexta Extinção em Massa de Espécies, caracterizada por taxas de extinção entre cem e dez mil vezes maiores do que as taxas de base, inferidas pelos registros fósseis.*[1]” Luiz Marques, em descrição feita sobre sua obra para este lançamento Com a proximidade da realização da Conferência do Clima no Brasil (COP-30), com as diversas disputas e polêmicas hiperbolizadas sobre o evento, não sem coincidência relacionadas à tramitação acelerada e sanção, com vetos parciais, do Projeto de Lei 2.159/2021, apelidado “PL da Devastação”, a relevância e atualidade da obra são ainda mais reforçadas. Sâmia Bonfim, deputada federal por São Paulo (PSOL), afirmou no lançamento não ter dúvidas sobre a correlação dos recentes eventos de boicote ao Congresso Nacional e crescente lobbies pela sanção, sem vetos, do PL da Devastação. “Não é à toa que esses acontecimentos se alinhem ao tempo desta crise do governo Trump com o Brasil, dado que evidentemente se trata de uma quantidade de parlamentares de um nicho agrogolpista, norteado por acordos feitos por sua base com grandes capitais norte-americanos”, afirmou a parlamentar. Também presentes como debatedores estavam o geógrafo Allan de Campos, membro da Associação Brasileira de Saúde Coletiva: Abrasco (Abrasco), que detalhou desdobramentos da crise socioambiental nas condições de saúde de trabalhadores e demais residentes nos territórios afetados pela degradação em alta escala de grandes empresas, e Kallen Katia, engenheira agrônoma, representante do MST, que descreveu alguns detalhes do modelo de produção agroecológico, pesquisado e retratado por Luiz Marques em seu livro. “O Brasil conta hoje com o pior e o melhor dos modelos agrícolas do mundo, só precisaria inverter a escolha feita. O modelo extensivo de agropecuária, combinando vastas extensões de terra para uma e para outra prática, de forma sucessiva, é responsável pela alta emissão de gases de efeito estufa e pela degradação de elementos como a terra e a água, enquanto, por outro lado, o modelo de agroecologia, hoje aplicado e replicado pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), é capaz de produzir uma diversidade alimentar suficiente para garantir a segurança alimentar da população, enquanto ainda tem um potencial de restauração da terra e demais elementos da biodiversidade”. Luiz Marques, em fala de encerramento no lançamento de “Ecocídio” O Brasil e o crime de ecocídio Segundo Marques, o Brasil está no centro da aniquilação da biosfera. O país encabeça a lista dos únicos 17 países do planeta considerados biologicamente megadiversos em espécies endêmicas. É a nação biologicamente mais rica do mundo. Mas, ao mesmo tempo, desde 1970, é a que mais rapidamente tem destruído a riqueza sem rival de sua fauna, de sua flora e de seus solos, bem como a abundância de suas águas. Apenas na parte brasileira da Amazônia, e apenas desde 1970, mais de 870 mil km2 dessa floresta já foram eliminados. Isso equivale a uma área 3,5 vezes maior do que a área do estado de São Paulo. E o maior responsável por toda essa destruição é o agronegócio, uma atividade que nada tem a ver com o direito humano à segurança alimentar e com a atividade genuína dos pequenos e médios agricultores. Como demonstra Marques, o Brasil é, em suma, o país ao qual mais diretamente se aplica o conceito de crime de ecocídio. Em junho de 2021, o Painel de Especialistas Independentes para a Definição Legal de Ecocídio, convocado pela Stop Ecocide Foundation, elaborou uma descrição juridicamente formal do ecocídio nestes termos: “ecocídio significa atos ilegais ou irresponsáveis cometidos com conhecimento de que há uma probabilidade substancial de danos graves, generalizados ou duradouros, ao meio ambiente, causados por esses atos”.*[2] O processo de efetiva criminalização da conduta de ecocídio pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) foi interrompido por negociações pouco transparentes, restando prioritárias as responsabilizações penais de agentes de Estado por crimes de guerra e pelos genocídios reconhecidos pela corte. O livro Ecocídio. Por uma (agri)cultura da vida, de Luiz Marques, tem por objetivo dar maior evidência ao fato de que o modelo socioeconômico agroexportador está inviabilizando a sociedade brasileira. Esse modelo é, no Brasil, o maior responsável pela atual catástrofe climática, biológica, social e sanitária que já começa a assolar nossas cidades. De onde se depreende a necessidade imperativa de superar o modelo agroexportador por outro modelo, baseado na democratização da terra e na produção de alimentos genuínos, livres de agrotóxicos, próximos ao consumidor e geradores de segurança alimentar e prosperidade. Mais informações sobre o autor Luiz Marques é professor Livre Docente aposentado e colaborador do Depto. de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Foi curador-chefe do Museu de Arte de São Paulo (1995-1997). Dedica-se há 20 anos a pesquisas sobre as crises socioambientais contemporâneas. Em 2018, foi professor convidado na Universidade de Leiden, Holanda (2018) e entre 2021 e 2024 foi professor sênior da Ilum Escola de Ciência do Centro Nacional de Pesquisas em Energia e Materiais
Lançamento de livro debate o crime de Ecocídio no Brasil

Neste sábado (9), às 16h, a Livraria Expressão Popular, em São Paulo, recebe o lançamento de Ecocídio. Por uma (agri)cultura da vida. Por uma (agri)cultura da vida, novo livro de Luiz Marques, professor livre-docente aposentado da Unicamp e vencedor do Prêmio Jabuti. A obra analisa a destruição acelerada da biodiversidade e aponta o agronegócio como principal responsável pela crise ambiental, defendendo mudanças estruturais no modelo agroexportador. O evento contará com debate entre o autor, a deputada federal Sâmia Bonfim (PSOL-SP), o geógrafo Allan de Campos (ABRASCO) e a engenheira agrônoma Kallen Katia. Marques argumenta que o Brasil, embora seja o país mais rico em biodiversidade do mundo, lidera a devastação de seus ecossistemas, enquadrando-se no conceito internacional de crime de ecocídio. O lançamento ocorre na sede da Editora e Livraria Expressão Popular (Alameda Nothmann, 806, Campos Elíseos, São Paulo – SP). A entrada é gratuita e haverá sessão de autógrafos.
Oxfam propõe agenda pública para enfrentar desigualdade e crise da dívida global

A Oxfam Internacional produziu o relatório Do Lucro Privado ao Poder Público: Financiando o Desenvolvimento, Não a Oligarquia, em que denuncia o fracasso da atual abordagem do financiamento ao desenvolvimento, marcada pela priorização de interesses privados e pelo aprofundamento das desigualdades. Lançado no final de junho, antes da Conferência sobre Financiamento para o Desenvolvimento, ocorrida entre os dias 30 de junho a 3 de julho, em Sevilha (Espanha), um encontro para discutir a implementação da Agenda 20230 e discutir a agenda de financiamento global e avanço nos objetivos de desenvolvimento sustentável. A publicação mostra o descompasso entre o crescimento da riqueza privada e a estagnação de metas globais, como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Em 2024, apenas 16% das metas estavam em vias de serem cumpridas até 2030, enquanto o 1% mais rico acumulou mais de 33 trilhões de dólares desde 2015 — valor suficiente para erradicar a pobreza global 22 vezes. A pesquisa aponta também a ineficácia da estratégia conhecida como Consenso de Wall Street, que tem orientado instituições multilaterais a mobilizar o setor privado para financiar o desenvolvimento. Em 2023, apenas 87,9 bilhões de dólares foram destinados a países de baixa e média renda, com uma parcela mínima chegando aos países mais pobres. Além de ineficiente, essa prática tem sido mais onerosa aos cofres públicos e ampliado a exclusão social, agravando a precarização dos serviços essenciais. Outro destaque do relatório é o papel dos credores privados na intensificação da crise da dívida. Países de baixa renda gastam mais da metade de sua receita com o serviço da dívida e enfrentam práticas abusivas de fundos especulativos, como os chamados fundos abutres. Além disso, classificações de risco inflacionadas por agências privadas elevam artificialmente os juros pagos pelos países do Sul Global, causando perdas bilionárias em investimentos e desenvolvimento. Por causa deste cenário alarmante, a Oxfam sugeriu no relatório uma nova agenda a ser debatida nessa Conferência sobre Financiamento para o Desenvolvimento. As recomendações incluem a rejeição do modelo centrado no lucro privado, o fortalecimento do papel dos Estados no financiamento e na provisão de serviços públicos, a taxação justa dos super-ricos, a reforma da arquitetura financeira internacional e o cumprimento dos compromissos de ajuda internacional pelos países do Norte Global. O relatório conclui que o modelo vigente não está conseguindo enfrentar a pobreza e a desigualdade e propõe uma mudança urgente de paradigma. A organização defende uma economia que coloque o bem público no centro das decisões financeiras, com Estados protagonistas no desenvolvimento e uma distribuição mais justa dos recursos globais. Acesse aqui a publicação na íntegra.
Estudo apresenta caminhos para uma filantropia familiar mais estratégica e com impacto no Brasil

O Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS), com apoio de organizações parceiras, lançou o estudo Caminhos para a Filantropia Familiar no Brasil, que traça um panorama atual do setor no país e propõe estratégias para ampliar seu impacto. A partir de entrevistas com filantropos e especialistas, além de levantamento de dados e revisão bibliográfica, o relatório evidencia o potencial da filantropia familiar de atuar com ousadia e visão sistêmica em causas sociais, ambientais e culturais — especialmente aquelas que ainda enfrentam invisibilidade ou resistência do campo corporativo. Entre as principais descobertas , destaca-se a contradição entre o crescimento acelerado da concentração de riqueza no Brasil e o tímido avanço das doações familiares de alto patrimônio. Apesar do interesse crescente em causas como justiça social, sustentabilidade e redução das desigualdades, a filantropia familiar brasileira ainda é marcada por baixa articulação entre pares, receio de exposição pública, desconfiança nas organizações da sociedade civil e escassez de incentivos fiscais. O estudo aponta que muitos filantropos ainda preferem operar projetos próprios, o que pode dificultar o fortalecimento do ecossistema filantrópico e limitar o alcance transformador das ações. A pesquisa também revela que a motivação para doar vai além da caridade pontual e envolve cada vez mais o desejo de gerar mudanças estruturais. Filantropos escutados citam o incômodo com os próprios privilégios e a urgência de promover soluções de longo prazo. Essa mudança de mentalidade tem impulsionado a transição de uma lógica reativa para uma filantropia estratégica, baseada em planejamento, foco temático, maior disposição ao risco e conexão com políticas públicas. No entanto, ainda há desafios importantes de governança, sucessão geracional e construção de confiança entre doadores e organizações parceiras. Para isso, o relatório propõe um Mapa Estratégico, que inclui ações como letramento da mídia sobre filantropia, formação de advisors, fomento à nova geração de doadores e fortalecimento institucional das OSCs. Além disso, recomenda-se a articulação de capital financeiro, político e intelectual, bem como o diálogo com o Estado para gerar impacto sistêmico e duradouro. A criação de redes colaborativas entre famílias, fundações e iniciativas já existentes é vista como essencial para transformar a cultura de doação no país. A publicação reforça que ampliar a filantropia familiar no Brasil exige coragem, reflexão e compromisso com o coletivo. Mais do que doações pontuais, trata-se de assumir a responsabilidade pelo presente e pelo futuro do país, reconhecendo o poder de mobilização que cada indivíduo e família detém, não apenas por seus recursos, mas por sua influência, tempo e conexões. A transformação, como afirma o relatório, não será feita por poucos.
Campanha denuncia crueldade do comércio de peles de jumentos e seus impactos negativos para mulheres e crianças na África

A campanha Fim do Abate, lançada pela organização The Donkey Sanctuary, mostra uma realidade cruel que afeta silenciosamente milhões de mulheres, crianças e animais em todo o mundo: o comércio internacional de peles de jumento para a produção de ejiao, um produto da medicina tradicional chinesa. A campanha visa mobilizar governos, empresas e consumidores para pôr fim a essa prática devastadora que compromete os direitos humanos, a sustentabilidade e o bem-estar animal. Segundo o relatório Jumentos Roubados, Futuros Roubados, ao menos 5,9 milhões de jumentos são abatidos anualmente para atender à demanda global de ejiao, cujo mercado movimenta mais de 6 bilhões de dólares. O principal destino das peles é a China, onde o produto é promovido como um elixir para juventude e vitalidade. Contudo, o impacto dessa indústria vai muito além do mercado de cosméticos e suplementos. Para muitas famílias na África Subsaariana, sobretudo lideradas por mulheres, o jumento é um parceiro essencial de trabalho: carrega água, lenha, colheitas e até crianças para a escola. Quando um jumento é roubado ou abatido, as consequências são imediatas e devastadoras: queda brusca de renda familiar, abandono escolar — especialmente entre meninas —, aumento do trabalho físico e emocional das mulheres e exposição à pobreza extrema. A pesquisa de campo citada no relatório revela que até 97% das mulheres entrevistadas em regiões do Quênia relataram ter perdido seus jumentos para essa indústria. A renda dessas famílias chegou a cair até 73%. Também evidencia que essa prática agrava desigualdades de gênero, impede o progresso dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU e compromete o conceito de One Welfare — uma abordagem que integra o bem-estar humano, animal e ambiental. Além disso, o transporte e o abate ilegais de jumentos representam sérios riscos sanitários globais, com potencial para desencadear novas pandemias. A campanha Fim do Abate defende o fim imediato do comércio global de peles de jumento, a adoção de alternativas sustentáveis para o ejiao e o fortalecimento de políticas públicas para proteger comunidades vulneráveis. Entre as medidas sugeridas estão o veto à exportação de peles, a repressão ao tráfico ilegal de animais, a recusa no transporte dessas cargas por companhias aéreas e marítimas, e a promoção de tecnologia como a agricultura celular para substituir a matéria-prima animal. Informações para assinar e compartilhar a campanha estão disponíveis em www.fimdoabate.com.br
Censo ABCR 2025 revela perfil e desafios da captação de recursos no Brasil

O painel O perfil dos captadores brasileiros: dados do Censo ABCR 2025, realizado na tarde do primeiro dia do Festival ABCR (16 de junho), apresentou um panorama inédito da profissão no país. A pesquisa, conduzida pela Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR), foi debatida por Fernando Nogueira, diretor executivo da organização, e Ana Flavia Godoi, fundadora da Rede Conexão Captadoras e referência internacional na área. O Censo tem como objetivo mapear o perfil dos profissionais que atuam na captação e mobilização de recursos para causas sociais no Brasil, além de identificar tendências e desafios enfrentados no campo. Entre os dados divulgados, o salário médio dos captadores gira em torno de R$ 8.500. Os principais obstáculos enfrentados envolvem a falta de tempo dedicado exclusivamente à captação — muitas vezes acumulada com outras funções —, a ausência de visão estratégica por parte das organizações, escassez de recursos disponíveis e a carência de profissionais qualificados. As cinco áreas mais citadas como apoio à captação são: comunicação e marketing, setor administrativo-financeiro, diretoria e conselho, equipe de projetos e prestadores de serviços externos. As atividades mais frequentes no cotidiano dos captadores incluem: elaboração de projetos (82%), ações de comunicação e marketing, relacionamento com doadores (65%), gestão e planejamento estratégico (67%), acompanhamento financeiro e de projetos (62%), pesquisa de doadores potenciais (61%), criação de planos de captação (60%), reuniões (58%) e realização de eventos (56%). Entre as estratégias mais utilizadas estão: participação em editais de empresas, fundações e governos; uso de leis de incentivo; parcerias com empresas; eventos como jantares e bingos; doações recorrentes de pessoas físicas; botões de doação em sites e redes sociais; e captação com grandes filantropos. A pesquisa também revelou dados preocupantes sobre preconceitos na área: 27% dos respondentes afirmam enfrentar barreiras relacionadas à identidade; 35% já passaram por situações desconfortáveis ou discriminatórias; e 54% reconhecem que mulheres, pessoas negras e de grupos minorizados enfrentam dificuldades específicas na profissão. Mais informações estão disponíveis no site da ABCR: www.captadores.org.br
Entrevista com diretor executivo da ABCR sobre os 25 anos da organização, desafios da profissão e dados sobre mobilização de recursos

A 17ª edição do Festival ABCR reuniu mais de 1.200 pessoas em torno de 130 palestrantes, 90 debates, cinco plenárias e diversas masterclasses, consolidando o evento como referência para a área de captação de recursos no Brasil. Na ocasião, também foram celebrados os 25 anos da Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR). A Kantuta Comunica conversou com o diretor executivo da entidade, Fernando Nogueira, administrador de empresas com mestrado e doutorado em Administração Pública e Governo pela FGV-SP. Ele falou sobre os principais marcos dessa trajetória, os aprendizados do festival e dicas valiosas para quem quer ingressar na profissão. Kantuta Comunica- Como foi celebrar os 25 anos da ABCR junto aos dados do Censo 2025? O que ainda será incluído após o evento?Foi uma celebração muito especial. Tivemos uma plenária dedicada à nossa história, com homenagens a fundadores e ex-presidentes. Também apresentamos dados preliminares do novo Censo ABCR, que mostram a evolução da profissão. Pela primeira vez, incluímos respostas de pessoas que não são associadas, o que ampliou a representatividade dos resultados. Um dado importante é que a maioria dos captadores atua com vínculo CLT e salário fixo, o que mostra profissionalização e amadurecimento do setor. Ainda serão inseridos cruzamentos mais detalhados, como diferenças entre homens e mulheres, perfis de associados e não associados, atuação em organizações grandes ou pequenas, entre outros recortes que ajudarão a entender melhor o ecossistema da captação. Kantuta Comunica – Quais foram os principais aprendizados desta edição do Festival? Destaco três grandes aprendizados: • Tecnologia e inteligência artificial: estão definitivamente incorporadas ao nosso cotidiano. Precisamos aprender a utilizá-las de forma estratégica, sem abrir mão do elemento humano, essencial para o relacionamento com doadores e parceiros. Não existe botão mágico que resolva tudo. • Contexto desafiador: vivemos um cenário instável, com guerras, cortes em doações internacionais e discursos hostis às organizações da sociedade civil. Nesse contexto, é fundamental investir em estrutura, equipe e uma área de captação sólida. Não é hora de cortar investimentos, mas de fortalecer vínculos com as bases de apoio. • Aprendizado prático e coletivo: pela primeira vez realizamos uma plenária de pitch de captação ao vivo. Três participantes fizeram apresentações para captar recursos na frente de um júri especializado, que deu feedbacks na hora. Foi emocionante e muito rico em aprendizados. Essa experiência certamente voltará nas próximas edições. Kantuta Comunica- Que conselho você daria para quem quer iniciar na área de captação de recursos? Que livros e podcasts você recomenda?O primeiro passo é acessar o site da ABCR. Lá temos o boletim semanal com notícias do setor, a plataforma Captamos com dicas e conteúdos relevantes, além de cursos oferecidos pela Escola Aberta do Terceiro Setor — muitos deles gratuitos e ministrados por associados da organização. Uma grande novidade lançada nesse Festival é a certificação profissional em captação de recursos, que reconhece formalmente quem atua com ética, competência e experiência na área. O processo de certificação também serve como guia de aprendizado e desenvolvimento profissional. No site de certificação, há uma lista de referências, livros recomendados e orientações para quem deseja se preparar. A captação é uma área estratégica e transformadora. É preciso preparo técnico, sensibilidade e engajamento com a causa. Mas, para quem se dedica, é também uma trajetória muito recompensadora. Para saber outros temas debatidos no evento, acesse o site do Festival ABCR aqui: https://festivalabcr.org.br/
Festival ABCR 2025 celebra 25 anos da organização e consolida captação de recursos como profissão reconhecida no Brasil

O Festival ABCR 2025, realizado em São Paulo entre os dias 16 e 17 de junho , celebrou os 25 anos da Associação Brasileira de Captadores de Recursos com um público recorde. Na segunda-feira e primeiro dia de evento, reuniu profissionais, especialistas e as gestões anteriores da organização, reforçando a trajetória de consolidação da captação de recursos como uma profissão legítima e estratégica no fortalecimento do terceiro setor. João Paulo Vergueiro, diretor do Hub da América Latina do GivingTuesday, doutorando em filantropia e professor da FECAP, destacou o reconhecimento formal da ocupação no Brasil. “Nos últimos quatro anos, essa profissão cresce e se fortalece. Em Portugal, é chamada de captador de fundos; nos Estados Unidos, fundraising; e no Brasil, captador ou mobilizador de recursos – já reconhecida pela Classificação Brasileira de Ocupações (CBO)”, afirmou. Criada em 1999, a ABCR surgiu em um contexto de crescimento das organizações da sociedade civil, como ONGs, OSCIPs, OSSs, institutos e fundações. Desde o início, pautou sua atuação pela ética, profissionalização e qualificação da captação de recursos. “A primeira coisa que fizemos foi elaborar nosso código de ética, inspirado em modelos internacionais. Começamos com 20 pessoas e hoje somos mais de mil, trocando experiências e aprendizados. Os desafios mudaram: na época não havia nem internet, e hoje lidamos com LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais), redes sociais, eventos climáticos e polarização política. Evoluímos com o mundo. Tenho muito orgulho de ser captadora há 30 anos. Foi com essa profissão que sustentei meus filhos”, afirmou Patrícia, uma das fundadoras da associação. Rodrigo Alvarez, idealizador da Mobiliza Consultoria e integrante de gestões anteriores da ABCR, ressaltou o propósito da criação da entidade: “Não queríamos apenas institucionalizar uma área, mas construir uma cultura de responsabilidade. Captar recursos é um ato de confiança, escuta e compromisso. Requer ética, coragem moral e consciência.” Durante o painel, também foram homenageadas figuras importantes da história da ABCR, como Custódio Pereira, Cristina Morato, Marcelo Estraviz, João Paulo Vergueiro (JP) e René Stuart, em nome de seu pai Sérgio Stuart. Inovação impulsiona resultados na captação Um dos destaques da manhã do primeiro dia foi a palestra Como a tecnologia liberta, acelera e potencializa resultados, com Soraya Lopes, gerente de produtos e operações na Trackmob, e Louise Toews, coordenadora de marketing, performance e dados no Hospital Pequeno Príncipe. Elas compartilharam a criação conjunta de uma plataforma de CRM e um produto chamado Smart Pix, que permitiu integração de dados e resultados expressivos: 70% das doações passaram a ser feitas via Pix, com economia de mais de 5 mil horas de trabalho. “Você liberta pessoas para atuarem de forma mais estratégica”, explicou Soraya. Louise complementou: “Temos 60 milhões de brasileiros sem cartão de crédito, mas com acesso ao Pix. Hoje recebemos cerca de 26 doações por dia, com valores que variam até R$ 5 mil. Também desenvolvemos um portal da privacidade, com avaliação automatizada da procedência dos dados e integração com o sistema interno do hospital.” Trajetórias inspiradoras: IPÊ e Fiocruz O painel Trajetórias na captação trouxe os casos do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ) e da Fiocruz, com Andrea Peçanha e Luis Donadio. Donadio, gerente de parcerias da Fiocruz, relatou a criação do escritório de captação da instituição em 2007. Em 2013, já eram 45 parcerias ativas. O marco veio em 2020, durante a pandemia, com o programa Unidos Contra a Covid, que arrecadou R$ 530 milhões. “Captação exige planejamento, sistematização e coragem para se expor. Mais do que o valor captado, o impacto institucional é fundamental. É uma construção baseada em confiança e processos sólidos”, disse, citando Eduardo Galeano: “É preciso ter uma utopia que te coloque em movimento.” Andrea, coordenadora da Unidade de Negócios Sustentáveis do IPÊ, reforçou a importância do papel da captação para a conservação ambiental. A organização atua em quatro biomas brasileiros, com mais de 10 milhões de árvores plantadas e 20 mil pessoas beneficiadas por ano. “Nosso desafio sempre foi crescer com sustentabilidade, diversificar fontes e conquistar recursos sem restrição”, explicou. Em 2003, com apoio da Fundação Avina, o IPÊ criou a unidade de negócios sustentáveis, com foco em parcerias e geração de receitas por meio da comercialização de produtos e serviços. Três núcleos foram estruturados: desenvolvimento institucional, negócios sustentáveis e comunicação. “Começamos com R$ 60 mil e hoje temos orçamento de R$ 85 milhões, com 74% vindo do setor privado. Até 2003, não havia nenhuma verba privada”, detalhou Andrea. Ela finalizou destacando a importância da confiança: “Nada substitui uma entrega de qualidade e uma comunicação transparente. Investidores querem se sentir parte da causa.” Para saber outros temas debatidos no evento, acesse o site do Festival ABCR aqui: https://festivalabcr.org.br/
Tecnologias para promoção da parentalidade positiva: estudo de casos

O estudo sobre o Uso de Tecnologias para a Promoção da Parentalidade Positiva e do Desenvolvimento Infantil no Brasil apresenta ferramentas digitais que fortalecem a pauta da primeira infância e sintetiza as principais descobertas discutidas na Reunião Técnica, realizada em 7 de novembro de 2024, promovida pelo Banco Mundial e pela United Way Brasil (UWB, em parceria com a Universidade Harvard, a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal e a Fundação Van Leer. Esta publicação traz práticas e uma análise das formas como a tecnologia pode ser aliada para o debate na pauta de parentalidade. Essas iniciativas latino-americanas criaram e usam soluções tecnológicas para aperfeiçoar o alcance de políticas públicas e apoiar cuidadores em contextos diversos. São aplicativos, vídeos educativos, mensagens por WhatsApp e plataformas de capacitação com potencial para oferecer conteúdos de qualidade sobre práticas parentais, estimulando vínculos afetivos, desenvolvimento cognitivo e bem-estar das crianças. Entre as experiências apresentadas, estão: Afini, um chatbot com inteligência artificial que sugere atividades para pais e responsáveis realizarem com as crianças; o Crescer Aprendendo que articula oficinas com redes de apoio híbridas com grupos online e mentorias; a Jornada Online Primeira Infância (JOPI), uma trilha formativa voltada para apoiar o serviço de visitação domiciliar do Programa de Primeira Infância no Sistema Único de Assistência Social – Criança Feliz (SUAS) com capacitação online de profissionais; Nelson, o Nenê, um personagem que traz conteúdos para sensibilizar e apoiar famílias e cuidadores de crianças na primeira infância sobre promoção do cuidado e desenvolvimento infantil; Pé de Infância e FAMÍLIA+ combinam atividades presenciais em grupo com conteúdos digitais voltados para cuidadores; Triagem e Estimulação do Desenvolvimento Infantil (TEDI) e o Programa de Parentalidade da FMUSP, que combinam atendimento remoto e conteúdos interativos. Todas as iniciativas possuem parcerias com organizações da sociedade civil e a maioria com órgãos públicos. A publicação também compartilha os principais aprendizados, pontuando em cada desafio as saídas sugeridas e as estratégias de desenvolvimento contínuo das tecnologias e do monitoramento de resultados para a adaptação do produto às necessidades das famílias. O relatório ressalta o fortalecimento de parcerias entre governos, especialistas, organizações sociais e o setor tecnológico para desenvolver soluções baseadas em evidências, acessíveis e escaláveis. Ressalta ainda a importância de avaliar os impactos dessas iniciativas com rigor e de assegurar que estejam centradas nas necessidades das famílias. O uso estratégico de tecnologias, quando integrado às políticas públicas, pode se tornar um poderoso aliado na promoção do cuidado responsivo e do desenvolvimento integral das crianças brasileiras desde os primeiros anos de vida. Acesse aqui o estudo na íntegra.
O que pensam as pessoas sobre o uso de IA por ONGs

O uso de inteligência artificial (IA) por organizações não governamentais (ONGs) é um tema que desperta interesse global. Esse foi o tema central da pesquisa realizada pela organização britânica Charities Aid Foundation (CAF), representada no Brasil pelo Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS). O levantamento, que ouviu mais de seis mil pessoas de 10 países, incluindo o Brasil, revelou otimismo em relação às possibilidades que a IA pode trazer, mas também destacou preocupações importantes. Segundo a pesquisa, 37% dos entrevistados acreditam que os benefícios da IA superam os riscos potenciais, enquanto 22% pensam o contrário. As principais oportunidades associadas ao uso da tecnologia incluem: Por outro lado, os principais riscos identificados foram: De forma geral, a maioria dos participantes avalia que as oportunidades superam os riscos: 34% acreditam que ambos se equilibram, enquanto 25% enxergam mais oportunidades. Em países de baixa e média renda, o otimismo é ainda maior. No Quênia, por exemplo, 44% das pessoas veem mais benefícios. Já na Austrália, foi o único país onde a maioria considerou que os riscos superam as oportunidades, com saldo de -4%. A capacidade da IA de permitir respostas mais rápidas e direcionadas foi destacada como a oportunidade mais esperada e outros benefícios apontados foram: Apesar disso, há preocupações relevantes: Esses resultados mostram que o público espera transparência e cautela das ONGs no uso da IA. Em especial, doadores de maior valor tendem a observar mais atentamente como as organizações aplicam a tecnologia para cumprir suas missões. Para a CAF, a pesquisa também reforça que os países de baixa e média renda enxergam melhor as oportunidades do uso de IA em ONGs, especialmente no impacto humano positivo, como ajudar mais pessoas e responder a desastres. A pesquisa completa pode ser acessada no site da CAF.